História sem começo

“Hoje em dia.”
Não, hoje em dia não. É muito batido.
Tenho que começar o texto de maneira mais original.
“Atualmente.” Também não. Dá na mesma
Aprendi que um bom texto tem que ter um início chamativo, impactante.
Hoje em dia não é impactante. É redundante.
Já sei: “Refletindo sobre os dias atuais.”
Não. Se começar dizendo que refleti, vão esperar um texto mais elaborado, mais profundo. E, definitivamente, não é o caso.
Quem sabe seja melhor começar com pergunta.” O que está acontecendo em nossos dias?” “Por que as pessoas agem assim?” “Antigamente era igual?” Não. Ficou parecendo chamada do Globo Repórter.
E se eu começar o texto pelo meio? Alguns filmes são assim. A trama começa no meio e depois explica como chegou até ali.
Vou tentar.
“Por isso, esse tema merece nossa atenção.”
Ficou um horror. Não consigo começar pelo meio. Sempre comecei a contar a partir do número 1. Sei o alfabeto a partir do A. Só sei começar pelo começo. Estou condenado à linearidade perpétua.
Já tenho dois terços do texto. O meio e o fim estão prontos. Tenho tronco e membros. Falta a cabeça.
É curioso que sempre fui bom para iniciar. Regime, aulas de inglês, exercícios físicos. Sempre fui perito em começar. O complicado era dar sequência.
E agora, não consigo dar a largada.
Vou parar por aqui. Mas parar por aqui não é a melhor maneira de terminar.
Xi, vai começar tudo de novo.

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