O nó

Aquela gravata é especial.
Não pelo tecido, simples.
Muito menos pela estampa, sóbria, discreta, comum.
É diferenciada pelo nó.
Nunca soube dar nó em gravata. Tarefa complicada demais para alguém sem coordenação motora.
Sempre que precisava, ele fazia o laço pra mim.
Todo orgulhoso. Conferia àquele gesto uma grandeza de alguém que está realizando um trabalho artesanal raro, como um artista que se concentra nos últimos retoques antes de entregar sua obra.
Gabava-se de ser um exímio fazedor de nós. Se precisasse, tinha em seu acervo diversos tipos diferentes.
Nunca vi diferença entre os nós. Sempre me pareceram iguais, normais, banais.
Mas não aquele.
Quando terminava de usar gravata, eu desfazia o nó, para ser refeito por ele, na semana seguinte.
Porém, eu tirei aquela gravata do meu pescoço sem desfazer a laçada. E a guardei. Até hoje.
Foi o último nó de gravata que meu pai fez pra mim.
Guardo dele várias lembranças.
Ficou a gravata.
E o nó.
Que teima em não ser desfeito.

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5 respostas para O nó

  1. Nubia disse:

    A saudade é um sentimento que nos faz ver um tesouro em pequenas coisas, seja um perfume, uma foto… o meu é um cheque com uma assinatura que nunca ninguém mais fará igual…

  2. Raquel Reisrtexto disse:

    Com um nó…

  3. Thatiane disse:

    Que saudades… Linda crônica… Chorei.

  4. Gisele Tesser disse:

    Saudade………. um sentimento ” ruim” de coisas boas que vivemos!!!!!!

    Lindo texto!

    Parabéns!

  5. Michel Torres disse:

    Alguns nós não se desfazem nunca. Nos fortalecem. Tal como o bambu, precisamos de nós para podermos crescer.

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